Claudia Bakker

"Na parede da galeria a apresentação do roteiro manuscrito que precedeu a mostra; maçãs e esferas de mármores soltas no piso; o vídeo que projeta imagens de uma obra da artista similar a agora exibida; textos inscritos nas imagens projetadas. É visível a deliberada despreocupação de Claudia Bakker em organizar formalmente os objetos que reúne e exibe nesta exposição. A falta de uma ordem espacial objetiva, flagrante na dispersão física dos elementos instalados na sala, não significa, porém, qualquer adesão ao caos ou ao mero arbítrio de um sujeito artista que sussurra e se expressa. Toda a fragmentação do trabalho, em partes que jazem desestruturadas na galeria, sugere uma anticomposição que desloca o espectador para um campo interpretativo muito diverso do qual se costuma lançar mão ao contemplar obras de arte. A esperada ordenação dos objetos, e do próprio espaço, através de concepções formais evidentes, dá lugar, então, a uma outra noção de ordem, oposta aos valores estritamente plástico-visuais identificados, durante nosso século, com a própria essência da arte. Esta instalação de Claudia Bakker não objetiva, pois,a construção de espaços, mas a exploração de tempos diversos cuja sincronia provisória, materialmente produzida, dura apenas o período da mostra. Nesse sentido, transforma a galeria em uma espécie de lapso de espaço que intercepta tempos heterogêneos, concretos e simbólicos, evocados pelos objetos expostos. Há, portanto, o tópos de um entrecruzamento visível: futuro, através do roteiro-seqüela do tempo anterior à existência da obra; passado, memória imagética-textual cristalizada no vídeo e, finalmente, o confronto presente entre a frágil efemeridade das maçãs e a eternidade relativa das esferas de mármore. Sua provisória coexistência jamais poderia ser aprisionada na forma. Pereniza-se, porém, no conceito do trabalho."
Fernando Cocchiarale / 1998
© claudia bakker