Claudia Bakker

"O artista americano Robert Smithson(1938-1973)disse certa vez que via suas intervenções na natureza (land works) como um esforço para devolver a “Montanha Sainte-Victoire”a Cézanne. Guardadas as devidas proporções, diria que Claudia Bakker vem, já há algum tempo, tentando o mesmo em relação as maçãs.Depois de Cézanne, as maçãs nunca mais foram as mesmas. As centenas de maçãs pintadas pelo grande mestre francês criaram e revelaram oque parecia impossível:a maçã numa migração da natureza para a pintura. Basta olhar para crer. A exposição de Claudia Bakker na Galeria do Museu da república,intitulada “Foto-textos”, dá continuidade a trabalhos anteriores realizados no Museu do Açude e na Funarte. A questão é sempre a mesma as maçãs e o tempo. Seja através das fotos e do texto(utilizados na exposição), ou do vídeo e da instalação(em outras ocasiões),oque está em jogo são os modos de permanência que as coisas (a maçã e a arte) têm,expostos a consumação do tempo. A maçã, como metáfora da arte e da vida,só existe pela morte. O paradoxo é este:sem morte não há vida. Suas fotos misturam os tempos, ou melhor, elas querem ser tempo:da escrita,da arte, da fruta e do feminino. Todos os tempos num só,que parece retornar sempre novo. A maçã como natureza e como cultura. Se na recente exposição da Funarte-em que um grande mapa do Brasil estava desenhado no chão com maçãs,que apodreceram-interessou-lhe o tempo das coisas nelas mesmas, nestas fotos ela privilegia as múltiplas apropriações criadas pelas representações culturais. Seria interessante se as duas exposições estivessem mais perto,criando um campo de oposição e complementaridade. Por outro lado,a sensação de vazio desta exposição contribui para as referências simbólicas se revelarem para o espectador. As “Fototextos” de Claudia Bakker, são, antes de tudo, silenciosas, não obstante as múltiplas indicações de significado. A arte contemporânea, enquanto processo e crise, trabalha nesse território abismal e milimétrico entre o silêncio e o sentido, revelando que, no fundo, tudo é tempo e linguagem."
Luiz Camillo Osório / 1998
© claudia bakker