Claudia Bakker

No entanto, ela se move

Exposição traz recorte de 20 anos de produção de Claudia Bakker e uma fotogravura inédita que sintetiza poéticas de liberação e captura.

O Jardim do Éden, cenário bíblico onda cada árvore (de maçã, romã ou da vida) foi plantada com um objetivo simbólico, é tema reincidente da arte ocidental. Na pintura moderna, o cuidado com que Cézanne organiza maçãs e laranjas sobre dobras de toalha jogada sobre mesa poderia ser comparado ao rigos do posicionamento de rios e pomares na cartografia do paraíso. Em O Jardim do Éden e O Sangue da Górgona (1994-95), instalação de Claudia Bakker realizada há 20 anos na fonte do Museu do Açude, no Rio, 900 maçãs foram jogadas na água. De seu movimento suave na superfície, sobe força do vento, o visitante poderia vislumbrar metáforas da passagem do tempo e da transitoriedade da vida.

Dois anos depois, a artista voltou a mesma fonte e desenhou outra paisagem. Em A Via Láctea (1996), as maças foram substituídas por esferas brancas de látex, flutuando sobre matéria leitosa. Na primeira instalação, Bakker explorou a transparência: sob as maçãs, era possível discernir textos mitológicos abordando a dicotomia entre vida e morte. Na segunda, preferiu a opacidade e a ilegibilidade.

As duas instalações estão reunidas numa fotogravura insitulada Escreve na Memória (2014), realizada dentro do projeto Amigos da Gravura do Museu Chácara do Céu, que desde 1992 convida artistas a realizar uma gravura inédita. O encontro desses trabalhos de intervenção espacial em um terceiro trabalho fotográfico desvela dicotomias presentes em 20 anos de trajetória da artista carioca: perenidade e efemeridade; virtualidade e realidade; movimento e retenção; liberação e captura. Principalmente, aponta para jogos entre opacidade e transparência, que fundamentam hoje estudos sobre fotografia e imagens técnicas. Seja em instervenções no espaço, fotografias, filmes, vídeos, escritos ou, como definiu o crítico Luis Camillo Osório em 1998, em "fototextos", o trabalho de Claudia Bakker está atrelado ao paradoxo entre a velocidade do tempo e a retenção da realidade. Como Cézanne, Bakker tem pressa em ver, ao pressentir que tudo está, lenta ou rapidamente, desaparecendo.


© claudia bakker