Claudia Bakker

Encontro de imagens

Guilherme Bueno

Claudia Bakker apresenta na Anita Schwartz Galeria de Arte, em sua exposição Um encontro entre poetas e pintores, uma nova série de trabalhos nos quais sua investida sobre a questão da imagem assume outros contornos, quando comparados as suas obras anteriores. Não se trata nem de uma ruptura, tampouco de um desdobramento automático do que a artista vinha fazendo, e sim de, parafraseando o título de sua mostra, um encontro de diferentes perspectivas segundo as quais ela estabelece seu processo de construção recíproca de imagens, espaços e metáforas. Dito de outra maneira, em propostas anteriores, alguns elementos "figuracionais"(entenda o leitor a liberdade desse neologismo para evitarmos a palavra "figurativo", dotada de conotações distantes daquilo que sentimos perpassar o seu pensamento visual; quando sugerimos aqui "figuracional" é para explicitar como um objeto específico extraído de sua vivência atua como catalisador e deflagrador da narrativa da obra, deixando como secundário qualquer problema de ordem representacional associada a ideia de "figurativo") estabeleciam um eixo, um dínamo - podia ser a maçã, uma camisa, enfim, coisas que se impregnavam de narrativas pessoais e procuravam nisso instalar o trabalho no espaço como um campo dotado de razões e energias próprias. Na presente exposição, a artista opta por uma redução, por uma síntese, em momentos nos quais os objetos a assumirem o protagonismo da narrativa são a cor, o espaço e o gesto estruturante do qual ela lança mão. É fato que se pode indagar se eles não são mesmo contíguos a ponto de serem indistintos, e seguramente tal dúvida é na verdade uma afirmação legítima, compreensível quando nos detemos na maneira como os trabalhos se fazem em sua ocupação da galeria.

Trata-se da série de Composições, na qual Bakker articula telas, fotos, projeções, enfim, variados meios, estabelecendo entre eles nexos próprios. Para valermo-nos de duas analogias, caberia ponderarmos se elas (as composições), assim instaladas objetualmente na parede não repercutiriam, por um lado - e sem implicar nisso uma relação direta - as combined paintings de Rauschenberg, propondo, talvez combined installations, e processos pós-conceituais em que o ato de produção de sentido feito pelo artista é um trabalho de edição. De fato, são possibilidades que atravessam as poéticas contemporâneas e que no caso de Bakker se aproximariam metaforicamente de uma condição de constelações. Visto de imediato, usar a licença de falar em constelações talvez soe vago, mas ela nos é apropriada para refletirmos o quanto o processo de edição acima mencionado, uma vez considerada a criação dos elos que agregam suas partes espelha o mesmo gesto de "percebermos" algo, tal como acontece quando atribuímos às estrelas no céu uma imagem - absolutamente poética, por sinal. Tal situação, guarda outra nuance quando, considerado nossos dias seculares de hoje, conseguimos nessa mesma visada reconhecer Pégaso (com sua mitologia) e, na melhor perspectiva materialista, tão somente um conjunto de astros siderais. Similarmente em suas Composições há as coisas (pinturas, objetos e tudo mais) e aquilo que lhes escapa, ou melhor, lhe advém e as ultrapassa, em poucas palavras, o sentido poeticamente fundador que habita o espaço.

Mas como se constituem tais campos de força que são cada uma dessas obras? Recorrer novamente ao título da exposição é sintomático: fazer encontrar pintores e poetas é promover um intercâmbio de imagens. Daí a importância decisiva dos títulos escolhidos pela artista (Bairro chinês, Pássaro vermelho, silêncio, Floresta vermelha, A Via Láctea...). Vale observar desde como as cores se tornam coisas (o vermelho ou o verde que instalam paisagens), como também de um procedimento usual na pintura que acabou perdido no tempo, a saber, dos elaborados títulos escolhidos para descrever e situar o espectador diante do que via (e Turner foi um dos exemplos mais característicos). Os títulos desenhados por Bakker são poesias condensadas; talvez não caberia reduzi-los a um paralelo com o Haikai, mas a indução alcançada com economia e riqueza nesses títulos aparentemente casuais guarda uma força significativa, ao se nos abrirem todas as camadas de narrativas condensadas em cada uma das Composições.

Uma última palavra concerne ao "tempo" em que os trabalhos "acontecem". Trata-se de um tempo metalinguístico. Tentando ser claro, é a relação entre permanência e perda evocado pelas imagens, que congelam os vestígios de um objeto que deixou de existir, só assim lhe garantindo uma sobrevida (esta era uma das questões-chave das maçãs apropriadas pela artista). Mas ele também é metalinguístico por falar do inescapável funcionamento da obra de arte e seu dilema da estranha sobreposição de um eterno presente. Invertendo tal sentido na exposição, faz-se o contraponto em uma das Composiçõeso livro de Lucio Fontana perfurado, como que conjurando o processo a se sobrepor às reproduções fotográficas e antagonizando as naturezas-mortas abstratas que a ladeiam.

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Anita Schwartz Galeria de Arte apresenta, a partir de 24 de abril para convidados, e do dia seguinte para o público, a exposição "Claudia Bakker - Um encontro entre poetas e pintores", com obras inéditas e recentes da artista carioca, feitas especialmente para esta exposição.

O grande espaço térreo da galeria abrigará cinco grandes obras da artista, compostas por vários elementos, como pinturas, fotografias e objetos, como instalações pictóricas que dialogam umas com as outras. Haverá, ainda, um filme.

Os trabalhos são resultados do processo criativo de Claudia Bakker, que documenta suas instalações efêmeras, e esses registros passam a servir de ponto de partida para outros trabalhos. Toda sua produção, portanto, tem um fio condutor ininterrupto. "Venho ao longo dos anos construindo trabalhos que discutem a relação entre o efêmero e o permanente, em obras que trazem questões sobre o tempo, a paisagem e o feminino", ressalta.

Essas instalações, chamadas pela artista de "composições", tem de seis a oito elementos cada uma. Para a artista, que busca um diálogo constante com a poesia, os nomes de seus trabalhos têm peso, e os que estarão na exposição se chamam "Pássaro vermelho", "Bairro Chinês", "Entre jardins e florestas" e "Silêncio". As composições são para ela como "blocos de sensações poéticas", uma busca da construção de poemas.

Um elo percorre os quatro trabalhos: em cada um deles estará uma fotografia de sua instalação "A Via Láctea" - em que despejou sobre uma fontedo Museu do Açude, em 1996, três mil litros de tinta branca, e algumas bolas de gás, além de um buquê de copos de leite. Sobre essas fotografias, Claudia Bakker fez, agora, interferências com pintura.

A natureza é outro elemento comum aos trabalhos, um universo constante para a artista. "Para mim a natureza é uma motivação poética", afirma.

Além do branco, a cor vermelha está também sempre presente na produção da artista. Assim, em "Bairro Chinês", ela pesquisou o tom preciso que sugerisse a laca chinesa, buscada na tinta acrílica com brilho. Da mesma cor está a caixa de madeira que conterá uma pintura - "como uma árvore abstrata" - feita com fios de bordar. Completam a exposição pinturas de árvores em cor marfim pintadas sobre fundo negro.

Na obra "Pássaro vermelho", as telas são recobertas de tinta acrílica fosca, em tom de vermelho diverso, com sobreposições de tinta da mesma cor em forma de esfera, resultando em delicado alto relevo. A composição abrange ainda uma tela com pinturas de pássaros vermelhos em fundo amarelo.

"Entre jardins e florestas" traz sete elementos, entre eles telas pintadas em verde escuro fosco, em que duas delas recebem camadas de tinta brilhante, sugerindo umidade.

Na obra "Silêncio", o livro "Um encontro entre poetas e pintores", sobre o trabalho do artista italiano Lucio Fontana (1899-1968), é atravessado por diversos furos, e é o ponto central da composição que tem uma algumas telas, um objeto de parede e uma caixa.

FLORESTA VERMELHA

Com 24 círculos, cobertos de tinta vermelha, a instalação "Floresta vermelha" estará em uma das paredes do salão principal. O filme "A Via Láctea", de 16 mm, que registra a instalação feita em 1996, também estará na exposição.

SOBRE A ARTISTA

Claudia Bakker é uma artista plástica carioca, e vem participando desde 1994 de exposições coletivas e individuais. Conhecida por suas grandes instalações com maçãs, com trabalhos que discutem o efêmero e o permanente, Claudia realiza instalações em grandes escalas como com as 1.300 maçãs colocadas no Palácio Gustavo Capanema, no Projeto Macunaíma, da Funarte, em1998; os 3.000 litros de tinta branca no Museu do Açude, em 1996, e no MAM Rio, na exposição "Novas Aquisições", com um armário de 3m x 3m, com 1.050 maçãs, em 2012.

Para citar algumas exposições individuais mais recentes: "Limites do objeto", no Centro Cultural Banco do Nordeste, em Fortaleza, 2013; "O Tempo de Todos Nós", em 2012, no Museu Nacional Soares dos Reis e no Espaço T., em Portugal; "A partir da Primavera Nocturna", em 2008, na Galeria Graça Brandão, em Portugal; e coletivas: "A Primeira do Ano", na Anita Schwartz Galeria 2012; "Arquivo em aberto: Sérgio Porto 83-97" no Centro Cultural Sérgio Porto, 2012; "6B Desenho Contemporâneo Brasileiro", no Centro Cultural da Justiça Federal e "Novas aquisições 2010-2012", no MAM Rio, (chamo silêncio à linguagem-que-já-não-é-orgão-de-nada)." no Espaço T/Quase Galeria, Porto, Portugal, "Jogos de Guerra", no Centro Cultural da Caixa Econômica, em 2011, "Projeções", no Winzavod Center of Contemporary art-Moscow, na Rússia, em 2008; Estados de metáforas, com Primavera Noturna, Projeto Respiração, Fundação Eva Klabin, 2007.

Claudia Bakker possui obras em coleções públicas e particulares, como o MAM Rio, MACS/Sorocaba, SP entre outras.

© claudia bakker