Claudia Bakker

"Algumas coisas,como alguns trabalhos, parece que só atingem seu mais verdadeiro alvo estético e espiritual através de momentos distintos, como se tivessem um íma contínuo a decifrar. É por isso que os dois trabalhos do Museu do Açude, “O jardim do Éden e o Sangue da Górgona”,1994/95, e “A via Láctea”, 1996, ainda falam para Claudia Bakker, possuem uma duração que não é platônica, que continua nestes registros mostrados como documento de artista que nos revela um caráter íntimo, de bastidor. Para documentar isto nada melhor que o exercício e o auxílio da fotografia, pois como se sabe, ela reescreve a própria imagem já vivida, naquela memória que é a vida do perdido. Assim, o registro de um trabalho feito vira outro trabalho para receber novas leituras, novos olhares que são intervenções, ou seja, recebe descendência: como estas páginas do livro-objeto de 1995-com a maçã como elemento simbólico-que se inscrevem na matriz, como uma declaração de retorno a uma origem. É o caso da multiplicação das imagens nesta exposição-em um díptico ou num tríptico-que tem a ver com a memória, com suas projeções. O trabalho que Claudia Bakker desenvolve é tocado por essa atração incessante, delicada e forte, pela meditação sobre o orgânico. Nas fontes e nas maçãs, o líquido e o sólido são especialmente emblemáticos.Desde os albores do mundo a maçã contém feitiço, e desde Heráclito, o curso da água produz uma miragem no tempo. Nesta falada atração sobre o tempo desde as Potências do Orgânico, Claudia Bakker consegue descobrir um achado: o próprio tempo como algo orgânico. Já o título de “Fototextos” alude as fotografias como leituras. Onde a palavra segue sendo o fio de imagens,nexo e construção ao mesmo tempo. Como a carta visual, última da sala-em fotografia preto e branco- cheia de reflexos temporais, manuscritos, que é toda uma poética."
Adolfo Montejo Navas / 1998
© claudia bakker