Claudia Bakker

"Quando observo os desenhos de Claudia Bakker recordo, sobretudo, o pensamento de Hélio Oiticica no modo simples e econômico de se apropriar de alguns elementos como a cor, oriunda da cultura popular obtida na favela da Mangueira. Se, formalmente, os desenhos de Claudia nos lembram dos desenhos minimalistas de Mira Schendel e Eva Hesse (também não poderia deixar de apontar os desenhos de Anna Maria Maiolino), a linha orgânica que distribui o desenho no espaço imaculado do tecido, reforça ainda mais o sentido ou a escolha das cores. Hélio usou e abusou dos tecidos multicolores, sobretudo do vermelho, do rosa e do verde, cores fartamente representadas nas casas e nas vestes dos moradores das favelas. A experiência sensorial das obras de Hélio, sobretudo nos bilaterais, nos bólides e nos penetráveis, dava-se pelo contacto pela cor. Em Claudia, isto também acontece, pois a artista intensifica o olhar do espectador ao seguir as linhas coloridas que ora se misturam, ora se separam, depois reencontram-se na infinitude. Claudia trabalha a partir das heranças comuns da arte. Em seu caso começa na local, desde de Hélio e Pape, aliada à internacional, Eva Hesse e Juddy Chicago, para (re)construir uma outra história, surgida através das lembranças que o espectador poderá ter e acrescenta-la à obra. Mas há algo de autobiográfico nestes desenhos feitos precariamente com linhas sobre pedaços de tecidos. Diria que estes são um esforço no sentido de interromper a amnésia das vivências femininas, maternais. Seus desenhos não aprisionam a linha do desenho, mas subtraí a forma da composição ao adicionar o acaso para enfim construir um híbrido entre desenho e pintura. As cores quentes emitem uma luz e uma vibração confundindo-se no espaço representado. O fascínio da artista pela cor mostra que ela não está interessada na representação pictórica, mas sim na pele do desenho, ou na espiritualidade que se desprendem destas imagens que evocam o esforço físico da sua realidade."
Paulo Reis, Lisboa / 2008
© claudia bakker