Claudia Bakker

Brasil. Anos 60 (1960). A hegemonia do capital das multinacionais, partindo da internacionalização, deu origem a uma nova etapa do Capitalismo. As medidas adotadas por João Gulart com a finalidade de atenuar o grave problema da desigualdade social e as pressões políticas que vinha sofrendo dos movimentos de esquerda, fez com que as camadas sociais dominantes (elites dominantes do capital nacional: classe média e alta), percebessem os sintomas que poderiam romper com a manipulação das massas. Aliadas ao governo americano, com a participação do Congresso e do Exército instauram no dia 31 de março de 1964 a Ditadura Militar. Imposta por Atos Constitucionais, fundamentadas por leis e decretos militares, estabelendo um período de vinte anos de repressão às manifestações culturais, sindicais e anulação de direitos adquiridos em acordos conseguidos por movimentos sociais.
É neste contexto político que surge o principal movimento artístico pós-modernista brasileiro caracterizado pelo protesto político e social: a Tropicália. Um movimento que se inicia na música por Gilberto Gil, Caetano Veloso, Nara Leão, Gal Costa, Tom Zé, na banda Mutantes e Torquato Neto, dentre outros. Movimento este que procurava universalizar a linguagem da Música Popular Brasileira, incorporando elementos da cultura jovem mundial, como o rock, a psicodelia e a guitarra elétrica. Unindo o popular, o pop e o experimentalismo estético. Composições de caráter crítico que compunham o quadro complexo em que o Brasil estava imergido.
O Movimento Tropicalista teve seu campo expandido da música às artes plásticas compartilhando de estéticas e conceituações ligadas diretamente aos percausos políticos que o Brasil estava enfrentando. Hélio Oiticica, ao utilizar materiais efêmeros (madeira, carvão, terra crua, tecido) denunciava a democracia “faltante”, agindo como um artista propositor: o artista apresenta as ferramentas plasticamente construídas e o espectador é o ator sobre este trabalho (obra). Democratizando as obras e o acesso do público ao espaço de exposição como metáfora a supressão das liberdades individuais de expressão.
Desenvolve-se após este período uma produção embasada na desconstrução dos elementos primeiros da arte (suporte e material) partindo para uma arte conceitual ligada e o “experimentalismo” nas artes visuais. Claudia Bakker - artista carioca, atuante no eixo Rio-São Paulo, que realiza desde 1994 instalações e performances, com o registro fotográfico, que novamente são retrabalhados e resignificados em novos suportes - ao intervir ora sobre o espaço, ora sobre o suporte, com materiais efêmeros (luzes, maçãs, tecidos e cordas etc), tende a retomar estes experimentos com o efêmero.
A exposição “A Partir a Primavera Nocturna” é a retomada das experiências estéticas decorridas da exposição “Primavera Nocturna” na Fundação Eva Klabin, Rio de Janeiro, no ano de 2007, onde interviu sobre uma sala de jantar com cordas, documentando a ação em uma série de fotografias - expostas posteriormente. Nesta exposição apresentada no Porto (Portugal), retoma o desenho abstrato em sua produção artística, mas com a significante influência cromática presente em sua exposição anterior, assim como os tropicalistas que utilizavam luz e cor como elemento simbólico e significativo nas obras.
Ao se penetrar o “cubo branco” da Galeria Graça Brandão o expectador se depara com o silêncio-branco da galeria entrecortado com sons-vermelhos. A calma-limpa-branca maculada por desenhos. Muito mais silêncio do que sons. Poucos trabalhos apresentados (seis). A primeira vista o espectador observa apenas três trabalhos: dois a recepcionar o espectador (“É Primavera e a Espuma do Mar Brilha à Noite” 164,5x134,5cm, “Na primavera Nocturna o Céu é Rosa ao Entardecer” 164,5x134,5cm, ), um à esquerda e outro a direita; o terceiro ao fundo ( “O Dragão Vermelho e as Algas Flutuantes”, 164,5x134,5 cm). O caminho da exposição nos leva a observação da parte central da exposição, ritmicamente constante com a série fotográfica “Fragmentos da Primavera Noturna” (8 fotografias de 11,5x10cm), que liga a presente exposição a anteriormente apresentada, em 2007. Isso ainda deixa um grande espaço em branco para o entendimento do espectador, que logo é iluminado pelo texto da exposição, no qual o artista lança os fios ao expectador para que possa tecer sua história e suas interpretações sobre as experiências estéticas apresentadas. O texto da exposição serve como “fio condutor” ao expectador que pode sentir-se na corda bamba entre continuar a observar o trabalho e ir embora.
Há no trabalho de Bakker uma inquietação e uma “regressão” ao passado, às questões da infância. As linhas vermelhas que se estendem sobre o tecido branco, percorrem o espaço limpo e tentam traçar caminhos, emaranhados no tempo e no espaço, ora revisitando-os ora traçando novos rumos (construções lineares mais “limpas”).
Há na exposição um caminho que ora pode tentar ser conduzido pelo texto ora pela série de fotografias da exposição realizada no Brasil. A ocorrência da redução de escala, se comparado o trabalho intervencionista, sugere uma “maquetização” com a fluência e dispersão de mais cordas pelo espaço.
Os trabalhos expostos recorrem ao gesto, algo presente nos trabalhos expressionistas abstratos (como os trabalhos de Pollock), mas o rítmo é constante, com linha melódica única. Nota-se o movimento gerado pelo desenrolar e re-enrolar do novelo e da linha. Na tentativa de tecer. De tercer sobre o tecido algo biográfico. A posterior “colocação” sobre o tecido branco. Criação de pontos confusos de grande emaranhado. Nós. Desenhos livres, ora harmônicos ora desconexos na sinfonia do quadro, criando composições ora equilibradas ora dissonantes, a propagação da cor-som-energia pelo espaço expositivo. Os trabalhos estão enclausurados sob moldura e vidro, que impede que correntes de ar gerem na planaridade do tecido uma reverberação, o movimento livre, a ondulação do próprio suporte unindo-se a emissão de luz vermelha, poderia gerar ao trabalho as interferências construtivas e destrutivas sobre o desenho.
“A imagem, entendida como forma de apropriação do mundo, fica a oscilar entre a sua apresentação e a sua modificação. Com efeito, a imagem do mundo pode ser tanto a representação da realidade como a constituição verbal que permite mediar a figura do mundo (p.15)” Fernando Guimarães, em A Obra de Arte e o seu Mundo (Quasi Edições), cita a abstração na produção contemporânea delimitando um caractér subjetivo e claramente visto nos trabalhos apresentados na exposição. Os títulos dos trabalhos remetem a uma contemplação ora “com os olhos de ver” e tentar “achar” algo pictórico, ora em tentar traçar um percurso conceitual que o ligue a experiência proposta pela artista. Além de traçar uma conexão com o trabalho de Hélio Oiticica ao utilizar do “cromatismo vermelho” em seus trabalhos se liga ao trabalho de Arthur Bispo do Rosário (1909-1989), artista sergipano, “esquizofrênico-paranóico”, permaneceu por cinquenta anos internado em um manicômio em Jacarépagua, Rio de Janeiro, produz objetos com materiais oriundos do lixo e de sucata que, após serem descobertos, foram classificados como arte vanguardista e relacionados ao trabalho de Marcel Duchamp. Seu trabalho mais conhecido é o “Manto da Apresentação”, que seria utilizado no Dia Juízo Final e marcaria a passagem de Deus na Terra, além de manipular signos com a construção de discurso, fragmenta a comunicação em códigos privados, criando assim a abstração ao espectador, mais significante ao nível da experiência pessoal do artista.
Os trabalhos apresentados em “A Partir da Primavera Nocturna” se interligariam a uma produção surrealista se não fosse o carácter conceitual e dialético, que também é evocado no trabalho de Bispo do Rosário: o que é artesanal (?), qual o “limite” entre o objeto de arte e o artesanato (?) e para além disso, qual o limite entre o real e a abstração (?). Os três artistas, partindo de algo manualmente feito (artesanal) e consceitualmente construído (“obra de arte”, na contemporaneidade), quebram esta barreira. Bakker propõe isto em um período onde a arte é marcadamente influenciada pelo fluxo veloz do byte, com a manipulação e criação virtual. O retorno ao artesanal é, se não, um suspiro de liberdade individual artística a “evolução” desenfreada e aniquiladora que a tecnologia parece impor a arte e a vida, um retorno. Um pouco calmo sobre o colo da avó que trama em suas mãos sua memória e a sua vida. Há maternalismo. Na primavera as flores reaparecem sobre os campos demarcando um período de fertilidade e de multiplicação, o vermelho oriental-sangue marca o período de início e fim, a felicidade floral e o término em sangue.

Os trabalhos apresentados nesta exposição estão vinculados a produção contemporânea brasileira dos anos 60 e 70. Não é uma exposição de fácil percepção para o expectador que, ao percorrer as galerias comerciais da Miguel Bombarda no período, pode achar “só mais uma”, não valorando pelo desconhecimento cultural dos aspectos histórico-sociais aos quais as obras surgem, se quiser “fruir” o trabalho apresentado e tentar conectar-se interpretativamente a autora. É uma exposição para ser vista com calma e paciência para se tentar criar um fio entre os trabalhos, e para tornar significativa a experiência de contemplação e construção própria de significados, uma vez que a artista apresenta uma “obra aberta”. Olhar e tentar perceber em si onde os fios tocam e onde eles tecem significados com o apresentado. Remeter a infância colorida e as experiências táteis. Brincar com o fio da vida que é vermelho.
© claudia bakker