Claudia Bakker

Seja em intervenções no espaço, fotografias, filmes, vídeos, escritos ou, como definiu o crítico Luis Camillo Osório em 1998, em "fototextos", o trabalho de Claudia Bakker está atrelado ao paradoxo entre a velocidade do tempo e a retenção da realidade. Como Cézanne, Bakker tem pressa em ver, ao pressentir que tudo está, lenta ou rapidamente, desaparecendo.

Paula Alzugaray, 2014


Aquando da exposição da artista brasileira na Galeria Graça Brandão/Porto, em 2008, elas são portadoras, também de palavras que ultrapassam cânones estabelecidos de significação. No dia 18 de Abril ao final da tarde, em meio de aguaceiros e do maior frio, quem afluiu ao Museu Nacional Soares dos Reis, assistiu à ação empreendida pela artista. Dentro de uma luminosidade que reverberava no brilho das maçãs, lembrei da poética de Sophia de Mello-Breyner Andresen: A coisa mais antiga de que me lembro é dum quarto em frente do mar dentro do qual estava, poisada em cima duma mesa, uma maçã enorme e vermelha. Do brilho do mar e do vermelho da maçã erguia-se uma felicidade irrecusável, nua e inteira. Não era nada de fantástico, não era nada de imaginário: era a própria presença do real que eu descobria. Mais tarde a obra de outros artistas veio confirmar a objectividade do meu próprio olhar. Em Homero reconheci essa felicidade nua e inteira, esse esplendor das coisas. (1) Não havia sol, mas reinava a luz; não tinha mar, mas a profundidade da fonte deixava o braço mergulhar fundo; não encontrei mesa, mas vi gente em redor.
... à semelhança da unidade no mundo através dos sentidos porque pertença no Universo. Penso que de cosmogonia também se pode pensar, quando analisando as sistematizações intuitivas e também as conceituais na obra de Claudia Bakker.
1 - Sophia de Mello-Breyner Andresen - "Posfácio", Livro Sexto, Lisboa, Moraes Ed., 1976, pp.75-77

Maria de Fátima Lambert, 2012


Claudia Bakker não objetiva, pois,a construção de espaços, mas a exploração de tempos diversos cuja sincronia provisória, materialmente produzida, dura apenas o período da mostra. Nesse sentido, transforma a galeria em uma espécie de lapso de espaço que intercepta tempos heterogêneos, concretos e simbólicos, evocados pelos objetos expostos. Há, portanto, o tópos de um entrecruzamento visível: futuro, através do roteiro-seqüela do tempo anterior à existência da obra; passado, memória imagética-textual cristalizada no vídeo e, finalmente, o confronto presente entre a frágil efemeridade das maçãs e a eternidade relativa das esferas de mármore. Sua provisória coexistência jamais poderia ser aprisionada na forma. Pereniza-se, porém, no conceito do trabalho."

Fernando Cocchiarale, 1998


O que está em jogo são os modos de permanência que as coisas (a maçã e a arte) têm,expostos a consumação do tempo. A maçã, como metáfora da arte e da vida,só existe pela morte. O paradoxo é este:sem morte não há vida. Suas fotos misturam os tempos, ou melhor, elas querem ser tempo:da escrita,da arte, da fruta e do feminino. Todos os tempos num só,que parece retornar sempre novo. A maçã como natureza e como cultura.
As "Fototextos" de Claudia Bakker, são, antes de tudo, silenciosas, não obstante as múltiplas indicações de significado. A arte contemporânea, enquanto processo e crise, trabalha nesse território abismal e milimétrico entre o silêncio e o sentido, revelando que, no fundo, tudo é tempo e linguagem."

Luiz Camillo Osório, 1998



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